sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Recensão da "Introdução" a "Crítica das ligações na Era da Técnica

Recensão de:

José A. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz, “Introdução”, José A. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org.), Crítica das ligações na Era da Técnica, Lisboa, Tropismos, 2002, 336 p. ( pp. 11-17).


A questão da técnica parece ganhar uma acutilância cada vez maior. Contudo, esta evidência impede que a sua essência apareça à luz do dia, pois esconde-se por detrás de agenciamentos e formas muito diversos. É por isso necessário fazer uma genealogia desta "mobilização generalizada da experiência que tem origem remota, e que só se pode apreender pela atenção à longa duração que a determina" (Miranda e Cruz, 2002: 11-12).
Marx talvez possa ser considerado como um dos pioneiros na denúncia deste fenómeno que paradoxalmente combina uma cada vez maior racionalização com a emergência de fenómenos tipicamente pré-modernos. O próprio Marx "refere a famosa 'mesa' que, enquanto mercadoria, fica de cabeça para baixo e desenvolve no seu cérebro de madeira ideias grotescas, sendo bem mais fantástica do que alguma vez foi a 'mesa espírita'" (Ibid.: 12). Este exemplo sobre o fetichismo da mercadoria mostra claramente até que ponto Marx estava consciente desta dimensão oculta da técnica. A mercadoria, ao perder o seu contacto real e concreto com a produção, assumia um caracter irreal que paradoxalmente era visto como algo mais real e pragmático associado à economia racional capitalista.
Esta denúncia tornou-se ainda mais nítida com Walter Benjamin ao descrever o "'enfeitiçamento' generalizado do mundo, que acima de tudo opera uma crítica metafísica da 'metafísica': original e cópia, presente e passado, corpo e imagem, começam a perder nitidez" (ibid.: 12).
Também McLuhan mostrou que a invenção da escrita e, mais tarde, da imprensa se situavam na mesma tendência para a tipificação. Por fim, nos tempos actuais "as tecnologias do gramofone, da fotografia, da fantasmagoria, etc., mostraram a fragilidade das concepções correntes. As oposições entre 'escrita' e 'imagem', entre efémero e perdurável, etc., tudo isso fica totalmente subordinado aos procedimentos de 'registo' e de mobilização do registado por meios maquínicos" (Ibid.: 13).
No entanto, foram os poetas e os artistas que inicialmente tiveram a consciência mais aguda deste processo. Quando surgiram as primeiras máquinas ópticas, a fotografia e o gramofone, muitos artistas reagiram de uma forma crítica. A técnica invadia quase todos os domínios da experiência humana, culminando na máquina universal de Allan Touring — o computador. Tal como dizem Bragança de Miranda e Teresa Cruz "a cibernética, a teoria da informação e a teoria dos computadores tornam-se cruciais para compreender o que se está a passar, e que se pode resumir em algumas tendências básicas: 1] a progressiva substituição do analógico pelo 'digital', levando à integração das tecnologias anteriores no computador; 2] a ligação em rede dos computadores, usando as linhas telefónicas; 3] a progressiva substituição de largos sectores da experiência pela 'experiência sintética', que vai dos novos materiais às novas formas de sensibilidade; 4] a crescente integração da experiência na 'rede' ou 'matriz' controlada tecnicamente" (Ibid.: 13).

Ora, esta nova situação poderia indiciar algo completamente novo que tornaria necessária uma teorização radicalmente diferente, aquilo que se costuma designar por pós-modernismo. Não parece ser essa a ideia de Bragança de Miranda e Teresa Cruz: “no fundo, acabam por complicar mais a situação” (Ibid.: 13). Talvez seja necessário recorrer mais a uma re-escrita do que a uma escrita de tipo “posterior” radicalmente nova .

A sugestão dos autores é outra: é preciso ver estes problemas de uma forma mais ampla, sublinhando, por um lado, a sua longa duração e, por outro, o carácter recorrente do problema da ligação pois tudo gira em torno desse ponto . Em vez de sublinhar as linhas de descontinuidade falando de uma nova era ou de um pós, a via mais fecunda passa por “seguir à linha alguns problemas fundamentais, de longa duração, que podem servir para lançar luz sobre o que está em curso na cultura contemporânea” (Ibid.: 14).


Recensão de José Pinheiro Neves

jpneves@ics.uminho.pt ou jpneves2005@yahoo.com.br